Vamos falar sobre episiotomia?

Muita gente ainda acredita que a episiotomia – corte feito pelo médico na vagina da mulher na fase expulsiva do trabalho de parto – é necessária. A pergunta que quero tentar responder é: existe indicação médica para o “pique” no períneo? Alguma situação de risco para mãe e bebê justificaria esse corte?

Meu post de hoje surgiu numa ida ao banco. Em um momento a gerente me perguntou com o que eu trabalhava e contei que era doula, acompanhava partos. Ela disse: “que interessante, nunca conheci ninguém com esse trabalho, mas tenho visto coisas sobre parto natural ultimamente. Tive meus dois filhos de parto normal e quase não senti dor; só tomei anestesia por conta do corte”. E reforçou que só para cortar “lá embaixo” foi administrada a anestesia nos dois partos.

Eu fiquei pensando: por que os médicos continuam cortando uma região tão sensível quando evidências científicas mostram que a episiotomia não é necessária ou, indo mais longe, não é indicada?

O tal “piquezinho” é uma laceração importante em um músculo (períneo), que precisa de pontos para cicatrizar. Muitas mulheres relatam problemas na recuperação, como inflamação e dor, e outras tantas continuam sentindo dor durante muitos anos ao ter relações sexuais. Sem o corte feito pelo médico, a mulher tem a chance de não ter nenhuma laceração ou de ter lacerações espontâneas de primeiro ou segundo grau. A episiotomia já é uma laceração de segundo grau, ou seja, tiramos destas mulheres a possibilidade não terem corte algum ou de terem um corte espontâneo pequeno que às vezes não precisa nem de pontos.

Uma revisão dos estudos disponíveis mostra que a realização da episiotomia de rotina, ou seja, em todas as mulheres, não melhora desfechos para mãe ou bebê e não reduz o dano no períneo – ao contrário, aumenta-o. E se houver alguma necessidade médica de acelerar o parto para que o bebê nasça logo, é totalmente possível usar dispositivos como vácuo-extrator ou fórceps sem realizar o corte. Eu já vi isso acontecer algumas vezes em partos com obstetras humanizados.

Melania Amorim, médica obstetra com pós-doutorado em saúde reprodutiva, não realiza episiotomia nos partos que acompanha (ela ou sua equipe) há mais de 13 anos. Ela tem estudado o assunto e já publicou em seu site alguns artigos sobre o tema, que listo no final deste post. O que me chamou muito a atenção em um deles foi o seguinte: em uma análise de 450 partos sem episiotomia, quase 60% das mulheres não tiveram nenhuma laceração. Nenhuma!! E apenas 23% (menos de ¼) precisou de sutura (pontos) em lacerações de primeiro ou segundo grau. Agora imagine se o médico corta a vagina destas mulheres em todos os partos?

Para terminar, queria refletir sobre algo que ouço das gestantes que ainda não se informaram sobre o assunto: “meu médico diz que só vai cortar se achar necessário, se perceber que vai rasgar sozinha”. Bem, vamos lá…

Primeiro: os estudos mostram que a episiotomia de rotina não é indicada. Qual é o percentual de episios do seu obstetra? Se ele faz esse corte em todos os partos também fará no seu.

Segundo: se ele está olhando tão de perto pode haver algo errado na conduta. A posição deitada de pernas abertas é considerada a mais dolorosa para a grande maioria das mulheres, a mais desfavorável para a descida do bebê e ainda aumenta os riscos de laceração do períneo. Se você estiver de cócoras ou na água, certamente o médico não fará o corte.

Terceiro: não tem como saber se vai rasgar (lacerar) com antecedência. Médicos não são videntes.

Quarto e último: as pesquisas mostram que a episiotomia não melhora nenhum resultado e não previne lacerações de terceiro e quarto grau, que são as mais graves. Então, é sempre melhor não cortar!

Por fim, é possível preparar o períneo para o parto, inicialmente com fortalecimento e, a partir da 32ª semana, com massagem perineal para alongar o músculo e favorecer a passagem da cabeça do bebê. A partir de 34 ou 35 semanas de gestação, também existe a opção de usar o Epi-no, dispositivo voltado ao alongamento do períneo que é utilizado paralelamente à massagem manual. Mas isso fica para outro post!

 

Referências:

http://estudamelania.blogspot.com.br/2015/07/serie-videos-numero-1-episiotomia.html

http://estudamelania.blogspot.com.br/2012/08/estudando-episiotomia.html?q=episiotomia+evid%C3%AAncias

http://estudamelania.blogspot.com.br/2012/08/estudando-episiotomia-voz-das-mulheres.html?q=episiotomia+evid%C3%AAncias

http://www.sentidosdonascer.org/wordpress/wp-content/themes/sentidos-do-nascer/assets/pdf/controversias/Episiotomia.pdf

http://sites.uai.com.br/app/noticia/saudeplena/noticias/2014/08/21/noticia_saudeplena,149957/gravidas-precisam-se-informar-para-evitar-episiotomia-desnecessaria-e.shtml

 

 

 

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